A crise política no Distrito Federal avança para além do escândalo financeiro envolvendo o Banco Master e o rombo bilionário no Banco de Brasília (BRB). Nos bastidores do Palácio do Buriti, a possibilidade de o governador Ibaneis Rocha (MDB) desistir da candidatura ao Senado em 2026 já provoca rachaduras visíveis na base governista e expõe uma gestão fragmentada e em processo de desgaste acelerado.
Embora aliados confirmem que Ibaneis ainda não bateu o martelo sobre o futuro eleitoral, o cálculo político mudou drasticamente após as denúncias virem à tona. Até novembro do ano passado, o governador liderava as pesquisas e tratava a vaga no Senado como destino praticamente certo. Hoje, no entanto, a avaliação interna é de que uma candidatura em meio à crise pode se tornar um fardo eleitoral — e não um trunfo.
Interlocutores do próprio governo admitem, reservadamente, que a desincompatibilização até abril pode afastar Ibaneis da linha de frente da crise no BRB justamente no momento em que o problema exige comando político, articulação e respostas claras à sociedade. Permanecer no cargo, nesse contexto, passou a ser visto como uma tentativa de controle de danos, ainda que isso signifique adiar ou até abandonar o projeto eleitoral.
O clima no Buriti é de desconfiança e disputa. A gestão está hoje dividida em três blocos bem definidos: o núcleo fiel a Ibaneis Rocha, cada vez mais fechado; o grupo ligado à vice-governadora Celina Leão (PP), que observa o enfraquecimento do governador e passa a ocupar mais espaço nos bastidores; e um terceiro grupo, silencioso, mas numeroso, formado por aliados que já trabalham abertamente para desembarcar da atual gestão e garantir sobrevivência política em 2026.
Enquanto o governo tenta administrar a crise política, o impacto financeiro do escândalo pressiona o Legislativo. Deputados distritais aguardam o envio de um projeto de aporte de recursos públicos, com realocação orçamentária, para cobrir o rombo no BRB. O banco, controlado pelo Governo do Distrito Federal — que detém cerca de 53,71% das ações — tornou-se o epicentro de uma crise que pode recair diretamente sobre o contribuinte.
As investigações da Polícia Federal agravaram ainda mais o cenário. Em depoimento prestado em dezembro, o banqueiro Daniel Vorcaro afirmou que tratou pessoalmente com Ibaneis Rocha a possível venda do Banco Master ao BRB, em reuniões realizadas tanto na casa do governador quanto na residência do próprio banqueiro, entre 2024 e 2025. As revelações colocam o chefe do Executivo no centro das articulações investigadas.
Segundo a Polícia Federal, o Banco Master teria vendido ao BRB cerca de R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito inexistentes, o que indica que o prejuízo pode ser ainda maior do que o inicialmente estimado. Apesar de Ibaneis afirmar que fará “o que for preciso” para resolver os problemas do banco, aliados reconhecem que o discurso já não é suficiente para conter o desgaste político.
No MDB, a orientação oficial ainda é de manutenção do apoio ao governador, caso ele decida insistir na candidatura ao Senado. Nos bastidores, porém, o discurso é outro: cresce o temor de que Ibaneis se torne um peso eleitoral e arraste junto aliados, projetos e candidaturas. O que antes era um governo coeso hoje se apresenta como uma gestão sitiada, pressionada por investigações, disputas internas e um futuro político cada vez mais incerto.

