A abertura dos trabalhos da Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), que será realizada nesta terça-feira, escancarará um incômodo retrato do atual equilíbrio de forças entre os poderes locais: um Legislativo visivelmente constrangido e um Executivo que, mesmo ausente fisicamente, deverá impor o ritmo da sessão.
Diferentemente de anos anteriores, quando o plenário se transformava em espaço de discursos, acenos políticos e recados públicos ao Palácio do Buriti, os deputados distritais serão orientados — por meio de um roteiro oficial elaborado pelo Cerimonial da Câmara Legislativa — a permanecerem em silêncio. Apenas o presidente da Casa, membros da Mesa Diretora e autoridades convidadas terão direito à palavra.
O controle sobre o uso da tribuna ficará ainda mais evidente quando se observarem os números: dos 24 parlamentares que compõem a CLDF, apenas sete estarão autorizados, em tese, a se manifestar conforme o roteiro da sessão. Desses, somente dois pertencerão à oposição. Na prática, isso significa que 17 deputados distritais deverão permanecer calados, já que a solenidade será encerrada logo após as falas das autoridades previamente convidadas.
A cena reforçará a percepção, já presente nos corredores da CLDF, de que o Parlamento distrital tem atuado mais como um órgão chancelador das decisões do Executivo do que como um poder autônomo de fiscalização e debate. Esse formato da sessão “não deixará margem para protagonismo legislativo” e transformará a abertura do ano parlamentar em um ato meramente protocolar.
Outro gesto simbólico chamará atenção: o governador Ibaneis Rocha (MDB) e a vice-governadora Celina Leão (PP) não vão comparecer à solenidade, quebrando uma tradição institucional. Em seus lugares, o governo será representado por Gustavo Rocha, secretário da Casa Civil e figura apontada nos bastidores como o verdadeiro articulador das decisões do Palácio do Buriti — conhecido por alguns como “o governador que trabalha nas sombras”.
A opção por enviar o principal interlocutor político do governo, e não o chefe do Executivo, será lida por observadores como mais um sinal de que o centro do poder não estará necessariamente no gabinete oficial do governador, mas nas articulações discretas que orbitam ao seu redor.
Enquanto isso, a maioria dos deputados distritais assistirá à cerimônia sem voz ativa, numa demonstração pública de fragilidade política que contrasta com o papel constitucional que deveriam exercer: o de contraponto, fiscalização e representação da sociedade diante do Executivo.

