Uso de recursos públicos entra no radar da PF e do Banco Central
O caso que envolve o Banco de Brasília (BRB) e o Banco Master deixou de ser apenas uma apuração sobre operações financeiras suspeitas e passou a atingir o núcleo político do Distrito Federal. Além da investigação sobre possível gestão fraudulenta, órgãos de controle agora analisam a utilização de recursos do banco público para custear viagens, hospedagens e ingressos de eventos destinados a autoridades dos Poderes Legislativo e Executivo.
O BRB é uma instituição financeira controlada pelo Governo do Distrito Federal, o que coloca sob escrutínio qualquer gasto que possa configurar desvio de finalidade, favorecimento político ou conflito de interesses.
Eventos de luxo e autoridades convidadas
Nos últimos anos, o BRB ampliou sua atuação para além do DF, adotando uma estratégia agressiva de visibilidade institucional e relacionamento com clientes de alta renda. Essa política incluiu a presença do banco em eventos esportivos de alto padrão, no Brasil e no exterior.
Um dos episódios de sob análise envolve o Torneio de Roland Garros, em Paris, que contou com uma comitiva de 17 convidados. Além de clientes do segmento premium, estariam presentes dois senadores, o filho do governador do Distrito Federal e um deputado distrital. Para integrantes do Ministério Público, a participação de autoridades em eventos custeados ou intermediados por um banco estatal pode caracterizar conflito de interesses, dependendo da origem dos recursos e da justificativa institucional apresentada.
Fórmula 1: R$ 3,2 milhões em camarotes
Outro caso que reforçou os questionamentos foi revelado por reportagens do UOL e do Estadão em 13/11/2024. Segundo os veículos, o BRB adquiriu 110 ingressos de camarotes para o Grande Prêmio do Brasil de Fórmula 1, realizado em São Paulo, no dia 3 deste mês.
O gasto estimado é de ao menos R$ 3,2 milhões, valor utilizado para a compra de ingressos que foram distribuídos a políticos, empresários e clientes do banco. Entre os políticos presentes no evento, segundo as reportagens, estariam:
A participação de autoridades em um evento custeado por um banco público reacendeu o debate sobre uso de dinheiro público para benefícios privados e sobre os critérios adotados para a concessão desses convites.
Arena BRB também é alvo de questionamentos
As investigações não se limitam a eventos fora do Distrito Federal. Órgãos de controle analisam se houve gastos semelhantes relacionados a eventos realizados em espaços que integram a Arena BRB, como o Estádio Mané Garrincha, o Ginásio Nilson Nelson e o Autódromo Nelson Piquet, além de partidas e eventos no Maracanã, no Rio de Janeiro.
O foco é identificar se ingressos, passagens aéreas e hospedagens foram pagos com recursos do banco estatal sem comprovação de interesse público ou retorno institucional, o que pode configurar irregularidade administrativa.
Torneio de vela em Dubai
Notícias divulgadas pela imprensa revelam que o banco financiou torneios de vela em Dubai, adegas e até charutarias de luxo em São Paulo.
Nova diretoria foi informada de que o BRB fazia opções intrigantes para patrocínio e publicidade. O banco havia negociado, por exemplo, um contrato de três anos para ajudar a promover um torneio de vela em Dubai. O negócio ficava na casa dos R$ 10 milhões, e a gestão atual tenta sustá-lo
Investigação financeira aprofunda crise
Paralelamente, a Polícia Federal instaurou inquérito para apurar possível gestão fraudulenta no BRB, com foco nas operações envolvendo o Banco Master, instituição privada que foi colocada em liquidação extrajudicial pelo Banco Central em novembro de 2025 após a identificação de irregularidades consideradas graves.
As apurações investigam a transferência de recursos bilionários do BRB para o Banco Master, incluindo cerca de R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito que, segundo a PF e o BC, podem ser inexistentes ou apresentar indícios de falsificação. O eventual prejuízo ao erário e a responsabilidade de gestores públicos estão no centro da investigação.
Responsabilizações possíveis
Caso seja confirmada a existência de desvio de finalidade no uso de recursos públicos, os envolvidos poderão responder nas esferas administrativa, civil e criminal, incluindo crimes contra o sistema financeiro, improbidade administrativa e violação das normas do Banco Central.
As investigações seguem em andamento. Até o momento, não há conclusões definitivas, mas o avanço das apurações amplia a pressão sobre a gestão do BRB e sobre a relação entre o banco público e agentes políticos do Distrito Federal.

