Por trás da promessa de uma nominata forte e competitiva, a matemática do PSD-DF começa a produzir mais perguntas do que respostas. Enquanto alguns candidatos aparecem com centenas de milhares de reais em recursos, outros relatam receber migalhas — e há quem diga ter ficado com absolutamente nada. No meio da conta, R$ 350 mil destinados a um único escritório de advocacia chamam atenção.
No mundo da política, dinheiro de campanha não é detalhe. É combustível eleitoral. E, quando os números começam a aparecer no DivulgaCandContas, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a velha pergunta surge quase naturalmente: quem está recebendo quanto, de quem e por quê?
Segundo os dados disponíveis no sistema da Justiça Eleitoral, o escritório Prado Brandao Sociedade Individual de Advocacia recebeu R$ 200 mil da candidata a deputada federal Carol Fleury.
Não parou aí.
O mesmo escritório recebeu outros R$ 150 mil do candidato ao Senado Ronaldo Fonseca.
Resultado: R$ 350 mil registrados em pagamentos destinados ao escritório.
A cifra, por si só, não significa irregularidade. Escritórios de advocacia podem prestar serviços e receber pagamentos regularmente declarados durante uma campanha eleitoral.
Mas política não vive apenas de legalidade. Vive também de escolhas, prioridades e critérios.
E é justamente aí que começa a pimenta.
R$ 350 mil no escritório, R$ 20 mil ou R$ 30 mil para candidato
Enquanto o escritório aparece com R$ 350 mil em pagamentos registrados, candidatos da própria nominata relatam uma realidade bem diferente.
Há candidatos a deputado distrital que dizem ter recebido R$ 20 mil ou R$ 30 mil, valores considerados insuficientes para montar uma campanha competitiva.
Outros afirmam ter recebido ainda menos.
E há quem relate ter ficado sem nenhum recurso.
A pergunta que circula entre candidatos, portanto, não é difícil de entender:
Como um escritório pode movimentar R$ 350 mil enquanto candidatos da mesma legenda lutam para conseguir recursos mínimos para colocar uma campanha na rua?
Não se trata de afirmar que o pagamento seja ilegal. Trata-se de perguntar sobre prioridades e critérios.
E, quando o dinheiro é público e eleitoral, a pergunta fica ainda mais incômoda. Ainda mais quando não há precedente de pagamentos deste vulto, pra uma empresa constituída em janeiro deste ano.
E tem mais: a ligação com o gabinete de Rogério Morro da Cruz
O caso ganha uma camada adicional porque Michelle Prado, responsável pelo Prado Brandao Sociedade Individual de Advocacia, é nomeada no gabinete do deputado distrital Rogério Morro da Cruz (PSD) na cota de Kontoyanis que é vice-presidente do PSD-DF.
A relação profissional é um fato que ajuda a contextualizar a movimentação.
Mas é importante separar as coisas: o vínculo profissional, isoladamente, não permite afirmar irregularidade, favorecimento ou qualquer ilegalidade na contratação eleitoral do escritório, o que espanta é o direcionamento de um volume tão grande de recursos, quando uma boa parte dos candidatos do PSD estão a míngua.
Ainda assim, em política, conexões chamam atenção.
Principalmente quando aparecem associadas a cifras de R$ 350 mil reais.
A pergunta que incomoda não dentro do PSD
Candidatas do partido também passaram a questionar os números.
Segundo relatos feitos ao portal, algumas procuraram a reportagem depois da divulgação dos valores e demonstraram incômodo com a diferença entre os recursos destinados a determinados fornecedores e aqueles disponíveis para candidatos e candidatas que disputam uma vaga na Câmara Legislativa, estão mais incomodados, porque aqueles que mais levam o nome de Arruda são os que menos têm.
A comparação é simples e, justamente por isso, desconfortável:
Um único escritório está recebendo mais recursos do que várias candidatas e candidatos juntos?
Se a resposta for sim, a próxima pergunta é inevitável:
Qual foi o critério utilizado para chegar a essa distribuição?
E por qual razão Carol Fleury e Ronaldo Fonseca repassaram recursos tão volumosos, quando os seus candidatos a distrital permanecem no zero?
Michelle Prado e os bastidores do grupo político
Michelle Prado também possui trajetória política anterior no PMN e no PRD, onde exerceu função nas executivas das legendas.
Ela integra o grupo político de Lucas Kontoyanis, que, após a perda do comando do PRD, acabou sendo abrigado no PSD.
No Distrito Federal, o PSD tem entre suas principais lideranças Paulo Octávio e Arruda.
Agora, com a campanha de 2026 entrando na fase em que cada real começa a ser disputado, o nome de Michelle volta ao centro das conversas por causa dos R$ 350 mil destinados ao escritório Prado e Brandão por dois candidatos do próprio PSD.
Coincidência? Relação política? Contratação profissional? Ou será que são recursos que entram e saem, pra atender alguém?
Os dados oficiais mostram os pagamentos. As explicações sobre os critérios são outra história. E a justiça eleitoral já examina com Lupa o que se passa no PSD do Distrito Federal, comandado por Paulo Octávio.
A conta do PSD que os candidatos querem entender
O problema maior, porém, não está apenas nos R$ 350 mil.
Está na sensação de que existe uma distância enorme entre os recursos disponíveis para alguns e o dinheiro que chega às mãos de outros candidatos da mesma nominata.
De um lado, cifras de centenas de milhares de reais.
Do outro, candidatos tentando fazer campanha com R$ 20 mil ou R$ 30 mil — ou, segundo alguns relatos, sem receber nada.
E é aí que a conta começa a não fechar.
Se existem milhões para distribuir, quem decidiu quem recebe?
Se existem critérios, quais são eles?
E, se todos estão no mesmo projeto eleitoral, por que a diferença de tratamento financeiro parece tão grande?
A matemática eleitoral não costuma perdoar
No fim das contas, eleição é feita de voto. Mas campanha precisa de estrutura.
Material, equipe, comunicação, deslocamento, eventos, produção de conteúdo e presença nas ruas custam dinheiro.
Para quem recebe centenas de milhares, o jogo começa de uma maneira.
Para quem recebe R$ 20 mil ou R$ 30 mil, começa de outra.
E para quem fica com zero, talvez o jogo nem comece.
É por isso que os R$ 350 mil do escritório Prado e Brandão ganharam tanta repercussão dentro da nominata.
Não porque o pagamento, isoladamente, prove alguma irregularidade.
Mas porque ele escancara uma questão política que o PSD-DF ainda precisa responder:
quais são, afinal, os critérios para distribuir os milhões enquanto alguns candidatos ficam com os tostões?
Por enquanto, os números estão no DivulgaCandContas.
E, na política, quando os números falam alto, o silêncio costuma fazer ainda mais barulho.
Outro ponto que está obscuro dentro do PSD é a divisão da presença dos candidatos no horário eleitoral e com maior importância nas inserções, aqueles pequenos anúncios, e que até agora o comando do partido se nega a divulgar para os deputados distritais e federais saberem quem apareceu, quantas vezes e por qual tempo.
A forte suspeita de direcionamento com a complacência de quem preside o partido.
Por tudo isto e pelo que os candidatos e candidatas consideram desrespeito, é que o Fantasma da renúncia ainda paira no ar, a partir do dia 15 de setembro.

