Enquanto o discurso oficial fala em responsabilidade fiscal, a realidade da rede pública de saúde do Distrito Federal expõe um cenário de colapso silencioso. Atrasos em pagamentos, fornecedores batendo às portas da Justiça e leitos fechados formam o retrato de uma gestão que, na prática, escolheu economizar onde não podia: na saúde.
Nos últimos dias, contratos deixaram de ser pagos e decisões judiciais passaram a ser o caminho para que prestadores de serviço consigam receber. O caso mais grave envolve o Hospital da Criança de Brasília, responsável por 52% dos leitos de UTI pediátrica da rede pública do DF. Em dezembro, a unidade chegou a fechar leitos de UTI e enfermaria por falta de repasse financeiro.
Questionado sobre a situação, o governador Ibaneis Rocha (MDB) afirmou que será necessário “manter o cinto apertado” nos gastos da Saúde em 2026. A declaração foi feita após cobrança sobre o atraso no repasse de verbas ao hospital e caiu como um balde de água fria para quem enfrenta filas, falta de atendimento e unidades operando no limite.
Segundo o governador, o orçamento da Saúde “não suportou todos os gastos”, houve aumento no preço dos insumos e desequilíbrio no contrato do Instituto de Gestão Estratégica de Saúde (IGES). A solução encontrada foi recorrer à chamada Fonte 100, dinheiro do orçamento que não estava originalmente destinado à Saúde. Mesmo assim, o caixa não fechou.
O resultado da equação é simples e cruel: a Justiça precisou intervir. Na última sexta-feira (2), uma decisão judicial determinou que o Governo do Distrito Federal libere R$ 69 milhões para o Hospital da Criança. Em outras palavras, sem ordem judicial, crianças continuariam disputando vagas inexistentes em UTIs.
A situação escancara um paradoxo difícil de explicar. Enquanto o governo fala em ajuste e contenção, a saúde pública entra em modo de sobrevivência. O “cinto apertado”, na prática, virou estrangulamento de serviços essenciais. Fornecedores atrasam entregas, contratos ficam desequilibrados e hospitais passam a trabalhar no limite da legalidade e da humanidade.
Mais do que um problema contábil, o caos na saúde revela falhas graves de planejamento e prioridade. A inflação dos insumos médicos não é novidade, tampouco o peso financeiro do IGES. Ainda assim, o governo parece sempre ser pego de surpresa — como se salvar vidas fosse um gasto inesperado.
No fim das contas, a conta não fecha no orçamento, mas sobra para a população. E, no Distrito Federal, o recado é claro: quando o governo aperta o cinto, quem fica sem ar é o paciente.

